Teatro de Ouro Preto, o mais antigo nas Américas, completa 250 anos

11/06/2020

Construído pelo coronel João de Souza Lisboa, com provável projeto arquitetônico de Mateus Garcia, seguindo as linhas do barroco italiano desaparecidas na mudança da fachada em 1861, a casa guarda uma série de curiosidades de bastidores 

A história da Casa da Ópera de Ouro Preto nos mostra que quando os proprietários do teatro falharam (prefeituras, governos estaduais, o governo do Império e até a Coroa portuguesa), os artistas assumiram o comando e não deixaram o teatro fechar. Foto reprodução Google

Uma salva de palmas para a joia da arquitetura colonial mineira, tesouro artístico nacional e monumento da primeira cidade brasileira a receber, há quatro décadas, o título de patrimônio da humanidade. A Casa da Ópera - Teatro Municipal de Ouro Preto, no Centro Histórico da antiga Vila Rica, completou no último sábado (6), 250 anos de beleza e encantamento.

Mais antigo teatro em atividade nas Américas, inaugurado em 6 de junho de 1770, o espaço administrado pela prefeitura local recebeu em seu aniversário as palmas apenas no modo virtual. É que a pandemia do novo coronavírus atropelou a programação neste 2020 em que Ouro Preto celebra os 40 anos do título concedido pela Unesco e reverencia a memória de Felipe dos Santos (1680-1720) no tricentenário da Sedição de Vila Rica.

Entrar no teatro, mesmo vazio, sentar-se na cadeira de palhinha e observar os detalhes da construção se tornam um prazer para quem gosta de celebrar a arte, valorizar a arquitetura e defender o patrimônio. Erguido no Largo do Carmo, em área tombada desde 1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Casa de Ópera tem formato de lira, sendo um dos poucos teatros no mundo que recriam o instrumento. Com acústica perfeita, fica entre as grandes paixões de cantores líricos e pesquisadores da obra, tanto pela beleza como pela longevidade. 

O teatro sempre funcionou da melhor forma possível graças aos artistas ouro-pretanos, mas a situação está muito longe de ser a ideal. Foto: reprodução Google

Para não deixar a data passar em branco, as pessoas puderam acompanhar de forma virtual contações de histórias e música em transmissão pelas redes sociais da prefeitura. 

Segundo a secretária municipal de Cultura e Patrimônio, Deise Lustosa, o Teatro passa por alguns melhoramentos , como troca de cortinas e revisão de todos os equipamentos cenotécnicos.

Um marco da comemoração está na conclusão do livro escrito pela musicóloga e cantora lírica Rosana Marreco Orsini Brescia, com doutorado sobre o tema na Universidade de Sorbonne, em Paris (França), imagens de Lucas Godoy e apresentação do ex-secretário municipal de Cultura e Patrimônio Zaqueu Astoni Moreira.

Em 2012, a pesquisadora publicou "É lá que se representa a comédia: A Casa da Ópera de Vila Rica (1770-1822)". Rosana é também autora de Estudos sobre a cenografia e o teatro em Portugal. Natural de Vitória (ES) e "mineira de coração", ela mora na cidade do Porto, em Portugal, e é pesquisadora na Universidade Nova de Lisboa. 

Nos seus estudos, Rosana Brescia mostrou que, no Brasil, o Teatro de Bonecos do Rio de Janeiro (1719) e o Teatro da Câmara de Salvador (1733) foram pioneiros, mas saíram de cena. Logo depois, veio a primeira Casa da Ópera de Vila Rica, demolida em 1752. A inauguração do teatro de Ouro Preto, em 1770, se deu em homenagem ao aniversário do então rei de Portugal, dom José I (1714-1777).

Construído pelo coronel João de Souza Lisboa, com provável projeto arquitetônico de Mateus Garcia, seguindo as linhas do barroco italiano desaparecidas na mudança da fachada em 1861, a casa guarda uma série de curiosidades de bastidores. Na época, apenas os homens podiam subir ao palco e faziam também os papéis femininos, travestidos, mas a Casa da Ópera quebrou essa tradição. Há registros de mulheres em cena, embora a rainha dona Maria I (1734-1816) proibisse tal prática.

 O teatro foi se aclimatando aos recursos essenciais de hoje, mas nunca vai ser um teatro de ponta em termos tecnológicos. Foto: reprodução Google

Conforme pesquisa divulgada pela prefeitura local, a Casa da Ópera foi espaço de espetáculos para a elite local e palco para atos políticos, como o de Rui Barbosa (1849-1923) na Campanha Civilista, no início de 1900. Em cena, no século 18, pela primeira vez no Brasil atrizes negras se apresentaram. 

Ao longo do tempo, a edificação sofreu várias alterações, com decoração remodelada em 1851. Em 1983, numa reforma, foram descobertas pinturas antigas de autoria desconhecida, supostamente feitas entre 1854 e 1862, representando a comédia e o drama. Em 2006, com apoio do Iphan e do extinto Programa Monumenta, do governo federal, o edifício foi restaurado e passou a contar com um anexo para o público e as produções artísticas. 

Já em 2014, sob descaso, com problemas estruturais e de segurança, a Casa da Ópera foi obrigada a fechar novamente as portas. Só foi reaberta em janeiro de 2017, assumida pela atual gestão municipal. O Estado de Minas documentou várias vezes a situação e cobrou providências das autoridades, pois havia vigas de madeira podres que colocavam em risco a vida das pessoas.

Para o ex-secretário Zaqueu Astoni, titular no Conselho de Patrimônio da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais, o teatro virou paixão. "Amamos o passado vivo na herança cultural que se torna instrumento de uma vida melhor para todos. Não somos passadistas, mas cultores da história. Nunca seremos conservadores, mas conservacionistas de um patrimônio que faz de Minas Gerais síntese e símbolo do Brasil."

Fonte: Estado de Minas