Historicamente apagada, literatura afro-brasileira é reescrita por pesquisadores

12/06/2020

Estudo é fruto de um trabalho coletivo, de pesquisa, indicação no próprio nicho de autores negros, divulgação de movimentos sociais e rodas de leituras 

Carolina de Jesus foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil e é considerada uma das mais importantes escritoras do país. A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, sustentando a si mesma e seus três filhos como catadora de papéis. Foto: Reprodução Google

Texto de Juliana Aguiar - Diário de Pernambuco

Quantos livros escritos por autores negros você tem na sua estante? Quais escritores negros você conhece? Esses foram alguns dos questionamentos levantados nos últimos dias após o assassinato de George Floyd, cometido por um policial branco, se desdobrar em uma luta antirracista. A onda de protestos invadiu o Brasil, encontrando paralelos nas vítimas diárias dos confrontos armados nas comunidades e favelas do país. Na última semana, a morte do garoto Miguel, de 5 anos, aos cuidados da empregadora da mãe, fortaleceu o movimento no Recife. As mensagens escritas nos cartazes questionam as instituições, os hábitos e os olhares de uma sociedade frente ao valor da vida de uma pessoa negra.

Com um país majoritariamente negro, formado escravos africanos, não ter um escritor negro em sua estante é continuar optando pelo embranquecimento que permeia toda a construção social do país. Distante das prateleiras de best-sellers e esquecida em páginas secundárias do Google, a literatura afro-brasileira vem sendo descortinada aos poucos, em grande maioria, fruto de um trabalho de pesquisadores dispostos a reescrever o apagamento da história africana, dos quilombos ao período pós-abolição. Os negros sempre foram atuantes e líderes de suas histórias, da linguagem oral às publicações impressas. Conhecer é o mínimo. No Brasil, a maranhense Maria Firmina dos Reis foi a primeira romancista do país, lançando, em 1859, o livro Úrsula, de caráter abolicionista.

Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense, publicou em 1859 o romance 'Úrsula', precursor da temática abolicionista na literatura brasileira. Foto: Reprodução Google

Uma das mais importantes escritoras brasileiras, responsável pela obra Quarto de despejo: Diário de uma favelada (1960), Carolina Maria de Jesus ficou marcada por seus relatos diretos e crus, que retratavam a dor, o sofrimento, a fome e as angústias dos favelados em São Paulo. Com uma tiragem inicial de 10 mil exemplares, o livro foi traduzido para mais de 13 idiomas e esgotou em apenas uma semana após o lançamento. Carolina teve sua trajetória lembrada em 2018, quando completaria 105 anos.

Tanto Carolina Maria, que é um clássico em vários países do mundo, menos no seu, quanto Maria Firmina tiveram livros bastante vendidos na época do lançamento, mas que depois entraram no esquecimento e faleceram sem lucros e reconhecimento. No ano passado, a mineira Conceição Evaristo, que começou a ser reconhecida como escritora somente após os seus 70 anos, chegou perto de ter uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, mas perdeu a disputa para o alagoano Cacá Diegues. E é preciso falar ainda do cânone Machado de Assis, que só foi "descoberto" como negro no ano passado, com a campanha "Machado de Assis Real", da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, que recriou uma foto clássica do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas e tantos outros.

Conceição Evaristo é um grande expoente da literatura contemporânea, romancista, poeta e contista, homenageada como Personalidade Literária do Ano pelo Prêmio Jabuti 2019 e vencedora do Prêmio Jabuti 2015. Foto Reprodução Google

"Historicamente, autores e autoras negros não tinham oportunidade de publicar com facilidade. A representação das mulheres negras na literatura, por exemplo, durante muitos séculos, foi feita apenas pelas mãos de homens brancos. Na contemporaneidade, a luta é pela reivindicação de um lugar de fala e produção para os escritores negros que estão a passos largos, ganhando um pouco mais de visibilidade, o que ainda é pouco, mas é uma conquista", destaca a doutoranda Adriana Minervina da Silva, que pesquisa a representação da mulher negra na literatura na UFPE.

"Isso é fruto de um trabalho coletivo, de pesquisa, indicação no próprio nicho de autores negros, divulgação de movimentos sociais e rodas de leituras. Isso seria impensável anos atrás", explica Adriana.

Anteriormente, a representação dos negros era feita por terceiros. Agora, buscam-se representações por quem também tem a experiência do preconceito social e do racismo. "É mostrar quem somos, nossas dores, nossa leitura de mundo no universo diegético que é a literatura", diz a pesquisadora. Adriana deu início aos estudos a partir da identificação com a obra Um defeito de cor (2006), de Ana Maria Gonçalves.

"Se há na literatura uma imagem 'negativa' de homens e mulheres negras, isso se deve a um imaginário cultural já há muito tempo cristalizado das representações desses povos na literatura. Esse imaginário foi criado e mantido por muitos séculos, inclusive há resquícios até hoje, de um olhar colonizador, de controle, cujo objetivo era apresentar as pessoas negras de modo estereotipado", explica, citando uma tendência na representação de mulheres negras de modo hipersexualizado, objetificado, como se elas fossem mais preparadas para satisfazerem os desejos sexuais dos homens.

A sexualização das mulheres negras também motivou a pesquisadora Ilka Souza, mestre em teoria da literatura, a conhecer o trabalho de Paulina Chiziane, primeira autora romancista mulher de Moçambique. "Conhecer Paulina me fez conhecer um pouco da minha origem afro-brasileira. Ela remonta as histórias de antepassados, transfere os aprendizados e saberes da língua oral para literatura, destacando a questão do corpo da mulher negra, subjugação, silenciamento, relações afetivas e hipersexualização", explica.

Adriana Silva e Ilka Souza pesquisam a representação da mulher negra na literatura. Fotos: Acervo Pessoal. 

Analisando a literatura brasileira, Ilka destaca, ainda, o processo de embranquecimento que fez Machado de Assis se tornar um cânone. "A sociedade brasileira decidiu embranquecer Machado de Assis. Deixaram com que os clássicos perdurassem, mas não se conhecia a imagem do autor enquanto homem negro. Em uma época em que, aos negros, eram destinados os trabalhos braçais, muitos autores como Machado pereceram. Maria Firmina foi esquecida. Lima Barreto só teve suas obras de denúncia conhecidas depois de morto."
Para ela, os atuais levantes antirracistas ajudam a dar visibilidade a pautas importantes defendidas pelo movimento negro. "Eu acho que o momento vai influenciar no sentido de gerar discussão. Tem muita gente indignada, mas o mais importante é refletir se no dia a dia isso está sendo colocado em prática. Esse tipo de comoção é importante para gerar discussão. Para se enxergar e refletir: será que sou de fato antirracista? Será que eu faço a minha parte para diminuir o racismo?", questiona.

Segundo a pesquisadora, consumir literatura afrobrasileira é uma saída para conhecer a história do país e valorizar as lutas do povo negro. "A literatura está virando cada vez mais um espaço de resistência. Mais pesquisadores negros estão nas universidades destinados a realizar pesquisas e conhecer a literatura africana. A literatura nesse sentido tem valor de denúncia e resistência."

Novas iniciativas
A filósofa paulista Djamila Ribeiro, pelo Instagram (@djamilaribeiro1) e YouTube, tem tornado a luta antirracista um espaço didático, para difundir informações e promover debates sobre pautas do movimento negro, como a apropriação cultural, colorismo e intolerância religiosa. Ela acredita que o enfrentamento ao racismo precisa ser mais do que posts para aliviar a consciência. Djamila iniciou o debate no livro O que é lugar de fala? (2017) e ampliou a discussão do racismo em Quem tem medo do feminismo negro? (2018) e Pequeno manual antirracista (2019). 

Djamila Taís Ribeiro dos Santos é uma filósofa, feminista negra, escritora e acadêmica brasileira. É pesquisadora e mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo. Tornou-se conhecida no país por seu ativismo na internet, atualmente é colunista do jornal Folha de S. Paulo. Foto Reprodução Google

Winniteca
Em 2018, a gaúcha Winnie Bueno deu início a uma iniciativa inovadora, uma biblioteca popular criada para democratizar o acesso à leitura e combater o racismo através da doação de livros. A ideia surgiu como uma sugestão às pessoas brancas que diziam querer integrar a luta antirracista. Na época, o projeto era um embrião e, um ano depois, ganhou o nome de Winnieteca, após uma parceria com o Twitter e o Geledés - Instituto da Mulher Negra. O projeto conecta doadores de livros com pessoas que desejam ter acesso.

Winnie Bueno criou um projeto que une doadores de livros para leitores negros. Foto: Ricardo Jaeger/VOCÊ S/A

Para solicitar um livro, é preciso entrar em contato através do Twitter (@winnieteca), que faz a conexão sem o interessado precisar entrar em contato com o doador. Somente pessoas negras podem ser beneficiadas. Os doadores podem ser brancos. Em um mesmo mês, é possível pedir até três livros, que demoram, em média, um mês para chegar ao endereço. Os autores mais solicitados são intelectuais negros como Angela Davis, Abdias do Nascimento, Djamila Ribeiro e Chimamanda Ngozi Adichie.