Entrevista TBN: Diretora executiva da Plan International Brasil aponta soluções para maior empoderamento e direitos das meninas

27/06/2020

Cynthia Betti diz que as meninas estão no centro de todos os projetos da ONG. "É por causa delas, para elas e com elas que trabalhamos"

Cynthia tem mais de 30 anos de experiência no setor corporativo em empresas farmacêutica, química e de seguros, nas áreas de Planejamento Estratégico e Recursos Humanos. Foto: divulgação Plan International Brasil 

Por redação TBN

O último relatório anual divulgado pela ONG Plan International revela que no Brasil meninas de 10 a 14 anos gastam mais de 50% do tempo se dedicando a trabalhos domésticos em comparação a meninos da mesma faixa etária. De acordo com o estudo, o país é o quarto colocado na lista de maior índice de casamento infantil no mundo - 36% das uniões são com meninas com menos de 18 anos -, ficando atrás da Índia, Bangladesh e Nigéria. A cada ano, 15 milhões de meninas em todo o mundo se casam antes de completar 18 anos.

E o que fazer para proteger o direito básico das meninas e fortalecer a igualdade de gênero nas mais vulneráveis comunidades do Brasil? Para responder esta pergunta, conversamos com Cynthia Betti, diretora executiva da Plan International Brasil, uma das maiores e mais antigas organizações pelo desenvolvimento das crianças do mundo. O trabalho da entidade é baseado no compromisso de garantir que as crianças tenham acesso aos seus direitos.

Confira a entrevista: 

TBN: Os projetos de transformação da Plan têm impacto direto com as comunidades chamadas "invisíveis". Gostaria que contasse alguns exemplos de onde alcançaram os principais resultados.

Trabalhamos com comunidades em condições de grande vulnerabilidade, sejam elas urbanas, rurais ou quilombolas, que têm, muitas vezes, nenhuma ou pouca infraestrutura. Estamos falando de saneamento, saúde e educação. Mas estamos falando mais ainda em conhecimento a respeito do acesso aos direitos. O desenvolvimento comunitário é essencial e por isso nossos projetos sempre são construídos a partir de uma linha de base onde verificamos as principais necessidades daquela comunidade específica, seja ela de acesso à água, proteção infantil, saúde menstrual, empoderamento de jovens, educação financeira, entre outras. A partir daí, tudo é construído com as lideranças voluntárias que são nossas parceiras na mobilização dos e das participantes bem como das famílias para que haja um engajamento de todas e todos.

A Plan tem projetos como Escola de Liderança para Meninas, La League, Geração, Água, Saúde e Vida, entre outros.

A Escola de Liderança para Meninas tem o objetivo de empoderar meninas de 15 a 19 anos por meio do desenvolvimento de habilidades de liderança, disseminação de conhecimentos sobre direitos humanos, promoção de discussões sobre igualdade de gênero e estímulo à atuação cidadã das meninas. O projeto está disponível nos estados do Maranhão, do Piauí e de São Paulo, formamos no ano passado 43 meninas em São Paulo (SP). Além disso, participam da formação outras 143 em Codó (MA), 73 em São Luís (MA) e 36 em Teresina (PI). Em São Paulo, 919 meninas e meninos foram alcançados pelas multiplicações do projeto no ano passado.

Já o La League é um projeto desenvolvido em conjunto pela Plan International, a Fundação Cruyff e a Women Win que usa o futebol para transformar as convenções de gênero e empoderar as meninas. É realizado na unidade de Codó (MA). Em 2019, o La League teve 17 times femininos e masculinos estabelecidos e recrutou 261 meninas e meninos como campeãs e campeões da mudança. O projeto também engajou 165 meninos, pais e modelos masculinos nas atividades de futebol de meninas adolescentes em nove comunidades localizadas nos municípios de Timbiras e Codó.

No Geração, que promove educação financeira e empoderamento econômico, temos 6.500 meninas e meninos participantes em Codó (MA), São Luís (MA) e Teresina (PI).

E no Água, Saúde e Vida promovemos a melhoria da qualidade de vida de famílias por meio do fornecimento de água potável para as comunidades onde ainda é comum a ocorrência de doenças causadas por água contaminada. No ano passado, o projeto foi implementado em dois municípios da região dos Cocais, no Maranhão. Seis comunidades rurais foram beneficiadas com ações diretas do projeto, quatro no município de Codó e duas em Peritoró.

Onde a tecnologia ajuda vocês na promoção profissional e pessoal das meninas?

No ano passado, lançamos o Portal Meninas Líderes, um espaço seguro para que meninas do Brasil todo possam trocar experiências e compartilhar dúvidas entre si. No portal, elas também têm acesso a reportagens e textos com informações relevantes. Fizemos uma parceria de conteúdo com a revista Capitolina, e publicamos alguns textos produzidos por elas. Ainda este ano, em outubro, vamos lançar a Aceleradora da Igualdade, uma plataforma desenvolvida para meninas de 14 a 24 anos.

Qual a maior desafio de trabalhar no terceiro setor e por quê?

Acredito que o principal desafio seja mostrar a importância do trabalho realizado no terceiro setor, que é bastante profissionalizado e idôneo. Este setor é formado por pessoas que têm uma enorme experiência de campo e das realidades do Brasil que na maioria das vezes é desconhecida daqueles que podem ajudar, de forma financeira, a subsidiar as iniciativas. Criar este vínculo de confiança entre o terceiro setor, as empresas e os vários órgãos do governo é essencial para uma atuação conjunta transformadora da realidade de nosso país.

Quando você olha para a realidade do Brasil, o que mais te preocupa e o que seria prioridade de mudança?

A enorme desigualdade social no Brasil, que é o 7º país mais desigual do mundo (de acordo com dados do PNUD). Enquanto não olharmos para os problemas estruturais, da má distribuição de renda e do investimento insuficiente na área social para que todas e todos tenham acesso à saúde e educação de qualidade será muito difícil reverter este quadro.

Algumas ONGs fazem trabalhos semelhantes, mas não com tanta estrutura. Qual a diferença do trabalho de vocês e as especialidades que diferem de outras organizações?

Todas as ONGs têm um trabalho fundamental nas causas em que atuam. A Plan tem 83 anos, está em presente em mais de 70 países e leva muito a sério a questão da promoção dos direitos das crianças e dos adolescentes com foco nas meninas. As meninas estão no centro de tudo que fazemos. É por causa delas, para elas, com elas que fazemos. Temos muitos estudos e pesquisas que embasam nossas iniciativas e que são também divididos com toda a sociedade para que possamos ter dados que nos possibilitem criar programas, iniciativas e políticas públicas que realmente impactem de forma consistente o cenário que queremos modificar.

Não só as meninas, mas toda a comunidade é beneficiada com o trabalho da Plan. Na sua opinião, o que mais chama atenção nas mudanças do cotidiano destas comunidades após a chegada da Plan?

Temos comunidades onde atuamos há mais de 10 anos que tiveram uma grande mudança na forma de educar e proteger as suas crianças. Comunidades onde aconteciam muitos casos de abuso infantil e, com o tempo, oficinas, programas e diálogo, as crianças passaram a ter a importância que deveriam e o cuidado com elas passou a existir de fato.

Durante a quarentena tenho visto o crescimento em número de casos de violência doméstica contra mulheres e crianças, em especial meninas, o que a Plan tem feito neste sentido?

Lançamos uma campanha chamada #QuarentenaSimViolênciaNão que já teve a adesão de mais de 120 organizações privadas, governamentais e não governamentais. A ideia é chamar a atenção para a violência doméstica que ocorre, principalmente em razão do gênero. Por ser mulher, por ser menina, ela acontece e está acontecendo ainda mais neste momento de isolamento social em que as vítimas perdem o contato com agentes que poderiam identificar a violência sofrida ou receber uma denúncia a respeito dela. Fizemos um Guia para orientar os governos sobre como criar respostas que sejam inclusivas de gênero, outro guia para organizações sobre como atuar garantindo que suas iniciativas não violem a segurança das crianças atendidas. Levamos às mais de 10 mil famílias que atendemos no Maranhão e no Piauí informações sobre prevenção à COVID, proteção infantil e sobre onde poderiam buscar ajuda em caso de violência.

O Brasil passa por uma recessão, é inegável, e deve ficar ainda mais complicado durante os próximos meses. De que forma isso afeta o trabalho de vocês e se existem planos para as pessoas mais vulneráveis não sintam ainda mais este impacto?

Além de nossa atuação nos programas de proteção infantil, direitos sexuais e reprodutivos, fortalecimento de direitos das meninas, vamos relançar um programa de empoderamento econômico que inclui a empregabilidade de jovens e empreendedorismo feminino para que possamos ajudar as comunidades a se reerguerem por meio de um trabalho digno e justo que traga sustentabilidade para as suas famílias.

Qual sua opinião sobre os últimos acontecimentos ligados ao racismo que moveu milhões de pessoas ao redor do mundo e como você enxerga esta doença social aqui no Brasil? Pode apontar algumas soluções para inverter este quadro?

O que tem sido muito difundido neste movimento é que não basta sermos "não racistas", mas temos que ser "antirracistas". Nossa CEO mundial, junto com o time de liderança, construiu um documento com planos de ação "antirracistas" para serem implementados em curto, médio e longo prazo, interna e externamente à Plan. Temos que ter ações afirmativas como esta que vão além de um simples posicionamento e trazem o verdadeiro movimento que precisamos. Acredito que esta é uma mudança de postura importantíssima que traz para cada um e cada uma de nós a responsabilidade de pensarmos em iniciativas que realmente ajudem a combater o racismo estrutural que existe em nosso país. Racismo resultado de uma sociedade escravocrata que nunca assumiu de verdade o grande crime que cometeu e por isso falhou muito na forma que endereçou as iniciativas e políticas para corrigir as consequências dele.

O machismo no Brasil ainda é grande e, como você, mulher e diretora de uma ONG especializada em capacitar e empoderar meninas, olha para tudo isso? Demos um passo para trás nestes últimos anos ou ficou apenas mais evidente por aqui?

Acho que estamos avançando a passos pequenos, não vejo retrocesso, mas sim uma maior liberdade das pessoas mostrarem o preconceito como se "agora fosse permitido", uma aversão ao termo "feminista" muito pela falta de compreensão sobre ele e sobre tudo que o movimento feminista conquistou ao longo das últimas décadas. Temos que combater o preconceito e a grande polarização dos últimos tempos, com o diálogo e a informação. Trazer cada um e cada uma para junto de nós em uma luta que é de todos e que não há perdedores, somente vencedores. Afinal, uma sociedade justa e igualitária para as meninas é uma sociedade boa para todo mundo.

Por fim, o que podemos fazer, pessoa física, jurídica e governo para diminuir o impacto das meninas em situação de risco no Brasil? Por onde começar?

Pessoas e empresas precisam estar juntas para financiar iniciativas por meio de suas doações, mas, principalmente, entender sua responsabilidade na mudança deste cenário, apoiando e exigindo a implementação de políticas públicas que garantam o amplo acesso a direitos a todas e todos. O Brasil precisa de recursos e a questão, tão debatida, da possibilidade de taxação de grandes fortunas deve ser levada muito a sério. Mas isso requer vontade política e pressão por parte da sociedade para que ela aconteça.